Dia Mundial da Prevenção do Suicídio | O papel da(o) Psicóloga(o) na prevenção e no manejo terapêutico

O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, lembrado em 10 de setembro, faz parte da campanha mundial do Setembro Amarelo, que busca a conscientização da sociedade sobre o suicídio, os seus sinais de alerta e as suas formas de prevenção. Os dados mais recentes revelam a importância e a emergência dessa discussão: a cada 40 segundos o suicídio é a causa de uma morte no mundo, em um total de aproximadamente 800 mil casos por ano, segundo o relatório “Suicídio no mundo”, publicado no dia 09 de setembro pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda que as taxas globais tenham caído 10% entre 2010 e 2016, o número de mortes permaneceu estável por conta do crescimento da população mundial. Neste dia 10, a OMS lança, em colaboração com os parceiros globais World Federation for Mental Health, International Association for Suicide Prevention e United for Global Mental Health, a campanha 40 seconds of action (40 segundos de ação). A campanha se estenderá até o Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro, cujo foco deste ano também é a prevenção do suicídio.

 

Frente a essa situação alarmante, os Estados e organizações internacionais passaram a instituir políticas que pudessem atuar na prevenção do suicídio. Em 2013, a OMS estabeleceu o Plano de Ação Integral em Saúde Mental, que tem como uma das metas reduzir as taxas de suicídio em 10% no mundo até 2020. No Brasil, a primeira política pública voltada especificamente para essa prevenção foi instituída só em 2017, ou seja, quatro anos após o Plano da OMS, e foi intitulada como a Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil. Este ano, em 2019, foi publicada também a Lei n° 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, como “estratégia permanente do poder público para a prevenção desses eventos e para o tratamento dos condicionantes a eles associados”.

 

Nesse debate, Psicólogas e Psicólogos têm um papel fundamental, tanto na participação de elaboração de políticas públicas como nas intervenções para a prevenção e no manejo de casos com risco de suicídio. Para promover discussões acerca dessa atuação, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) realizou a mesa-redonda “Meu paciente/minha paciente quer cometer suicídio. E agora?” no dia 25 de julho de 2019, em Curitiba. Participaram como palestrantes as Psicólogas Camila Cortellete Pereira da Silva (CRP-08/19943) e Luzia Carmem de Oliveira (CRP-08/15038) e o Psicólogo Paulo Vitor Palma Navasconi (CRP-08/25820), que destacaram aspectos essenciais para a reflexão das(os) profissionais da Psicologia.

 

Assista à gravação da mesa-redonda clicando aqui

Os contextos social e cultural em que a sociedade está inserida influenciam diretamente no fenômeno do suicídio. Segundo Camila, estamos em uma cultura em que a vida ganhou uma velocidade muito frenética, em que tudo é dinheiro e o sonho de consumo de muitas pessoas é o tempo: “quem não se pegou pensando ‘eu queria que o meu dia tivesse mais 20 horas, porque não estou dando conta de tudo o que eu precisava’?”, incita a Psicóloga.

 

Nesse contexto exaltado, também não há espaço para o sofrimento. O que acontece, explica Camila, é que existe uma cobrança estrutural de funcionamento, de produção, em que é preciso dar conta de tudo, não importa como. Dessa forma, há um constante desconforto indefinido, que muitas vezes não consegue ser entendido. É o famoso sentimento de vazio, segundo Camila, na qual a pessoa se sente desamparada e que se intensifica em uma sociedade de relacionamentos líquidos.

 

“Nesses momentos de grande sofrimento, quando se pensa que não existe mais saída, a única forma que a pessoa acredita existir para acabar com o seu desespero é morrer. É um ato que expressa dor, desespero e desesperança”

A Psicóloga explica que as formas mais usadas para conseguir lidar com esses sentimentos são as compulsões, que buscam uma satisfação rápida e um alívio da dor. Entre as alternativas estão os comportamentos autodestrutivos, o uso abusivo de álcool e outras drogas, o trabalho demasiado, transtornos alimentares, sexo desprotegido, direção perigosa e, em um extremo, o suicídio. Camila coloca que estes são comportamentos que mostram uma necessidade de mudança para a dor que a pessoa está sentindo, como um pedido de ajuda.

 

“Nesses momentos de grande sofrimento, quando se pensa que não existe mais saída, a única forma que a pessoa acredita existir para acabar com o seu desespero é morrer. É um ato que expressa dor, desespero e desesperança”, resume Camila. Ressalta-se que a motivação do suicídio nunca é única, mas multifatorial. Camila explica que estão envolvidos fatores socioculturais, políticos, ambientais, psicossociais e históricos pertencentes ao contexto daquela pessoa.

 

Dessa maneira, é importante que o trabalho da(o) Psicóloga(o) considere também as particularidades e singularidades da pessoa que está em sofrimento. O Psicólogo Paulo Vitor acrescenta que os marcadores sociais da diferença, como geração, classe social, raça, gênero, sexualidades, idade, entre outros, são fatores que compõem esse fenômeno e devem ser analisados nas suas especificidades.

O comportamento suicida se divide entre pensamento e ideação, as tentativas e o suicídio em si. Para a OMS, há três características prevalentes dentre as pessoas que possuem pensamentos de morte. A primeira é a ambivalência entre o desejo de morrer e de viver. Nessa fase, muitas vezes os pedidos de ajuda podem ser entendidos como uma forma de chamar atenção, mas que devem ser considerados por todos, conforme enfatiza a Psicóloga Camila. A próxima característica é a impulsividade, que é transitória e pode durar entre minutos e até horas, normalmente gerada por eventos negativos ou estressores do cotidiano. A última característica é a rigidez, na qual há pensamentos, sentimentos e ações de formas constritas que impedem a pessoa de encontrar alternativas para o seu sofrimento.

 

As Psicólogas Camila e Luzia e o Psicólogo Paulo salientam que, na atuação profissional, é também importante considerar os fatores de proteção e de risco de cada pessoa. Porém, a(o) profissional não pode achar que já sabe quais são eles, uma vez que cada um entende de formas diferentes os seus motivos para continuar vivo.

O primeiro passo para a prevenção é falar sobre o suicídio. Frente a um pedido de ajuda, lembrar que não é drama, não é para chamar atenção, não é “falta de Deus”. Camila atenta para que seja feita uma correção quando se escuta esse tipo de discurso, já que eles tornam a prevenção ainda mais difícil. Paulo Vitor destaca que a sociedade não aprendeu a lidar com a própria morte, menos ainda com a morte do outro. Falar sobre morte continua sendo um tabu, ainda que ela esteja presente diariamente, de forma concreta ou simbólica, como na perda de direitos, por exemplo. “É por isso que eu penso que uma das formas de prevenir é falar sobre a vida e que tipo de vida nós estamos construindo”, aponta o Psicólogo.

 

Há três tipos de prevenção: universal, seletiva e indicada. Na primeira, pretende-se impedir o início de um comportamento, e isso se dá, por exemplo, com a divulgação responsável por parte da mídia, em campanhas e cartilhas de conscientização. É por meio da prevenção universal que é possível colaborar para a promoção de saúde mental da sociedade e preparar para lidar com o sofrimento. Já a prevenção seletiva se destina a populações ou indivíduos que apresentam risco baixo ou moderado de comportamentos suicidas e precisam de ações mais específicas, como jovens, homens, negras e negros, população LGBTI e indígena. Por fim, há a prevenção indicada, para populações e indivíduos que já apresentam risco considerável ou já começaram a manifestar o comportamento.

 

Para prevenir, é preciso identificar os sinais de alerta. Camila aponta alguns, como mudanças drásticas no comportamento, piora no desempenho do trabalho ou estudos, afastamento de pessoas próximas, perda de interesse nas atividades que gostava de fazer, descuido com a aparência, perda ou ganho de peso, mudanças no padrão do sono, comentários autodepreciativos persistentes, desesperança, doação de pertences que valorizava, expressão clara ou velada de querer morrer.

Nesses casos, é preciso encaminhar para atendimento psicológico e psiquiátrico.


Em caso de emergência, deve-se procurar o pronto-socorro pelo número 192, a Unidade Básica de Saúde, a Unidade de Pronto Atendimento ou o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).


O Centro de Valorização da Vida também é um canal de ajuda, no qual é possível conversar com um voluntário através do número 188 ou do site www.cvv.org.br.

Para a Psicóloga Luzia, o suicídio é uma questão que vai aparecer no trabalho da(o) profissional da Psicologia, independente do contexto em que se está inserido. Por ser uma atuação que se dá sempre na dialética entre vida e morte, é um assunto que pode exigir da(o) profissional uma mobilização psíquica maior, além de gerar angústias e questionamentos éticos. Por isso, Luzia ressalta a importância de as(os) profissionais estarem sempre cuidando de suas subjetividades, dos seus espaços de terapia e supervisão.

No manejo clínico, a Psicóloga destaca que o suicídio é sempre um processo construído ao longo de uma trajetória e na singularidade daquela pessoa. A atuação, portanto, é sempre na individualidade de uma história, o que alerta para que não seja feita uma análise precipitada: “Precisamos cuidar dos rótulos que são colocados, para não entrar num estigma que pode acabar empobrecendo a nossa compreensão daquela situação específica”, salienta a Psicóloga.

Paulo Vitor também fala sobre a importância de uma abordagem respeitosa, sem procurar culpados ou apontar um grande erro. Segundo ele, é preciso ter uma escuta atenta e uma presença de fato: “Aquela pessoa que é a especialista da sua história”. Além disso, o Psicólogo aborda que é preciso desmitificar a ideia de cura, já que a Psicoterapia é um caminho a mais para a produção de ampliação dos modos de vida e dos modos de cuidado. “Não devemos assumir a onipotência ou convalescer na impotência. É um desafio”, complementa. Outro aspecto a ser considerado, para Paulo Vitor, é que na maioria das vezes a pessoa que pensa em suicídio quer acabar com o seu sofrimento, e não acabar com a sua vida. Como a sua dor se manifesta de forma intolerável, o suicídio é visto como a única saída possível.

O papel da(o) Psicóloga(o) é trazer possibilidades. Porém, nesse processo, Paulo atenta para os marcadores sociais, as singularidades e particularidades que não podem ser excluídas do manejo clínico: “A cada 26 horas uma pessoa LGBTI é assassinada no país. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Não podemos entender esse fenômeno de uma forma descontextualizada do fator social. Para mim, o adoecimento é político”.

“A cada 26 horas uma pessoa LGBTI é assassinada no país. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Não podemos entender esse fenômeno de uma forma descontextualizada do fator social. Para mim, o adoecimento é político”.

Uma questão que gera bastante dúvida na atuação psicológica que envolve o suicídio é o sigilo. A profissão está amparada no Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP) e nos seus princípios fundamentais. Nele, dois pontos são essenciais: a construção de um vínculo com o paciente ou cliente e o sigilo. Porém, quando há uma situação de risco, de que forma proceder?

 

De acordo com Luzia, é uma questão que deve passar por uma avaliação muito cuidadosa e criteriosa da situação do paciente. “Conhecendo mais a história, teremos mais clareza quanto aos graus de autodestrutividade que ela ou ele apresenta naquele momento. É essencial contemplar perguntas diretas sobre esse assunto. A(O) profissional não pode ficar melindrada(o)”, explica a Psicóloga. De acordo com Luzia e Paulo Vitor, se na avaliação a(o) profissional considerar a necessidade de quebrar o sigilo, é importante construir isso junto ao paciente, no sentido de ajudá-lo a entender que isso é um auxílio para aquele sofrimento e pode ser uma alternativa para lidar com aquela situação, para que ele não lide com isso sozinho. Além disso, esse trabalho deve ser realizado dentro de uma equipe multidisciplinar, com colegas de profissão, psiquiatras, família do paciente, entre outros.

 

 

 

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